Mestrados de Bolonha afinal podem ser interessantes

Esta semana assisti a uma apresentação do Departamento de Informática da FCT sobre as novas licenciaturas/mestrados de bolonha, vocacionada para as empresas. Pretendia-se que esta esclarecesse em que é que esta mudança se vai reflectir na relação universidade/empresa.

As faculdades têm alguma autonomia na definição destas regras, e fiquei bastante agradado com a visão da FCT sobre este assunto, principalmente nos princípios demonstrados e na atitude subjacente.

Por um lado, continua a existir uma clara diferenciação entre a licenciatura (3 anos) e o mestrado (5 anos). Quem tirar a licenciatura estará preparado para entrar no mercado de trabalho, integrado numa equipa para trabalhar num projecto de continuidade ou manutenção que, na prática, constituem a grande maioria dos projectos em Portugal. Por outro lado, o mestrado dota o aluno de capacidades diferenciadoras, nomeadamente a nível da concepção de novos produtos/serviços e de investigação/inovação. Esta diferenciação já existia antigamente entre a licenciatura (5 anos) e o mestrado (5+2 anos), com uma grande diferença: os mestrados tinha como único objectivo seguir a via académica. O mestrado de bolonha continua a ter uma tese mas que agora pode ser feita no âmbito de uma empresa, associada por exemplo a um projecto de investigação.

Um princípio importante é o da transferência de tecnologia entre a faculdade e a empresa, durante a tese de mestrado. A tese de mestrado deverá ser um projecto científico proposto por uma empresa com o patrocínio de um professor da faculdade. Esse professor assumirá a responsabilidade de orientação da tese em estreita colaboração com a empresa (que fornecerá um co-orientador). Cria-se assim um triângulo faculdade-aluno-empresa de grande mais valia para todas as partes – serão feitas regularmente reuniões de acompanhamento em que a transferência de conhecimento será essencial. Até agora a presença do orientador (universitário) nos estágios feitos nas empresas era practicamente nula, reduzindo-se a uma reunião a meio do semestre e outra no fim para apresentação do trabalho. É com grande satisfação que noto uma mudança nesta filosofia, no sentido de aproximar mais os professores das empresas e vice-versa. Afinal de contas os professores representam conhecimento de vanguarda, normalmente sem aplicação prática no imediato, mas com grande potencial de utilização futura. Se “temperarmos” esse conhecimento com a visão das empresas, uma visão comercial orientada ao consumidor, e mexermos vigorosamente com o empenho e energia de um estagiário acabado de sair da faculdade, podemos ter entre mãos uma receita deveras nutritiva. É com iniciativas destas que se estimula a inovação e a diferenciação no software desenvolvido em Portugal.

5 comments so far

  1. Carlos Rodrigues on

    Ou seja, os ciclos de bolonha são exactamente o que existia antigamente com os bacharelatos + licenciaturas, até ao dia em que alguém achou que três anos não eram suficientes e praticamente deixar de existir bacharelatos. Depois, veio bolonha, e voltou tudo ao início… as novas licenciaturas são os antigos bacharelatos, e os novos mestrados as antigas licenciaturas.

    Suficientemente confuso?

  2. Alves on

    Pelo que percebi, cada faculdade interpreta bolonha de forma diferente. No caso particular da FCT os novos mestrados *não são* as antigas licenciaturas, pois tens uma tese para fazer, e essa tese tem que ser um trabalho de carácter científico, não é o típico estágio “faz aí umas páginas web para integrar na mega-solução que implementámos há 3 anos no cliente X”.
    No entanto, acredito perfeitamente que outras faculdades interpretem os ciclos de bolonha da maneira que dizes.

  3. Carlos Rodrigues on

    Sim, na FCT tens o equivalente ao projecto de final de curso no fim do 1º ciclo, e uma tese mais leve do que a dos antigos mestrados no final do 2º. Em compensação, tens menos cadeiras no total dos dois ciclos do que tinhas na anterior licenciatura (que foi a que fiz). A soma final é praticamente a mesma.

    Bolonha tem duas finalidades: gerar mais licenciados de forma artificial (reduzindo o número de anos da “licenciatura”) e alterar os modelos de financiamento (com o modelo anterior de propinas relativamente baixas reduzido para os primeiros três anos, e o modelo dos antigos mestrados trazido para o 2º ciclo). É por isto que as faculdades portuguesas estão todas a correr para o modelo de Bolonha, ao contrário do resto da europa…

    Se não fosse, tinham mudado os nomes dos ciclos, em vez de criarem o caos com estes nomes iguais a referirem-se a níveis de formação diferentes.

    E o mais interessante é que não vai contribuir em nada para a comparação com os cursos estrangeiros, porque isso já foi atingido com a conversão para ECTS feita há uns anos atrás.

  4. Pais on

    Perspectiva muito interessante a da FCT tanto a nível da sua aproximação à empresa como no acompanhamento mais perto do aluno.

    Surgem-me, no entanto, algumas dúvidas quando dizem que “Quem tirar a licenciatura estará preparado para entrar no mercado de trabalho” mesmo sobre as condições que referes. Será que isto é realmente verdade? Em três anos obtens conhecimentos suficientes para efectuar um trabalho de qualidade num mercado cada vez mais exigente e cuja evolução é cada vez mais intensa (qualitativa e quantitativamente)?

    E noutra perspectiva (algo que não referes mas que a FCT publicou no seu site relativo ao segundo ciclo de Bolonha) o “resultado” final do mestrado pretende-se, e se eu percebi bem a apresentação publicada no site, que seja um protótipo de um sistema. Será que o mercado empresarial em Portugal está disposto a financiar este tipo de investimentos?

    De qualquer modo não posso deixar de enaltecer o esforço da FCT de se aproximar de um mercado europeu em que no integramos assim como de nova aproximação às empresas.

  5. Alves on

    Em relação à questão da licenciatura, isso será uma decisão de cada aluno. Quem tiver pressa de entrar no mercado de trabalho, fica-se pela licenciatura e, verdade seja dita, estará apto a participar na grande maioria dos projectos em Portugal (integração, configuração, …), que não exigem nenhum génio.

    Em relação ao mestrado, acho que é de todo o interesse das empresas em financiar esse investimento, pois apesar de tudo é uma forma relativamente barata de inovar – um estagiário é bastante barato e levas consultadoria à borla do professor orientador.

    Aproximar-se do mercado europeu é apenas consequência natural do acordo de bolonha, que é obrigatório, portanto igual para todas as faculdades. O que distingue a FCT é a decisão de utilizar os mestrados para fomentar a inovação – pelo acordo de bolonha ela poderia ter optado por ter mestrados cujo estágio era um estágio profissional normalíssimo para encher uns quantos chouriços…


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