Mercado a condicionar faculdades? Não devia ser ao contrário?
Saiu no expresso da semana passada uma notícia intitulada “Um índice para o mercado de trabalho“, sobre uma iniciativa para reduzir o fosso entre as universidades e o mercado de trabalho. Nessa notícia podia-se ler:
(…) o problema da empregabilidade e do desenvolvimento das empresas passa também pelo necessário alinhamento entre as capacidades e conhecimentos que o mercado precisa e aquelas que estão disponíveis em cada momento. Desta forma, as necessidades reais das empresas deverão orientar os conteúdos programáticos das universidades, principalmente se em cada trimestre a tendência destas necessidades se confirmar.
Ou seja, as empresas indicam às faculdades que competências precisam e as faculdades formam pessoas nessas áreas de modo a ficarem prontinhas para o mercado de trabalho. Embora esta medida reduza o tempo de aprendizagem já dentro das empresas (o chamado período “tou-às-aranhas”), a sua eficácia reduz-se ao curto prazo. No longo prazo, esta medida prejudicará alunos e empresas. Para justificar esta afirmação tenho que primeiro explicar como é que na área das tecnologias de informação se criam novos produtos/serviços.
Existem muitas fontes possíveis de inovação mas podem-se agrupá-las em dois grandes grupos:
- Inovação a partir do mercado (market pull): Baseia-se no feedback dos consumidores aos produtos/serviços já existentes, em focus groups, em análises de mercado, em estudo da concorrência (benchmarking), etc.
- Inovação a partir da tecnologia (technology push): Baseia-se em investigação de tecnologias, em laboratórios ou departamentos de I&D, na imaginação dos engenheiros. Normalmente estas inovações não “pegam” imediatamente, precisam de anos para se imporem no mercado e começarem a ser rentáveis.
As inovações “market pull” são invariavelmente inovações incrementais enquanto as inovações “tecnhology push” poderão ser inovações disruptivas. As inovações disruptivas são extremamente arriscadas mas, em caso de sucesso, são tremendamente mais lucrativas que as inovações incrementais.
Voltando ao tema deste post eu diria que, ao condicionar os programas das faculdades às necessidades das empresas, estamos perante um “market pull”, pois na prática estamos a decidir aquilo que as faculdades vão leccionar com base nas necessidades do mercado. Se o mercado está a pedir intranets/CMS então ensinem Sharepoint (a MS agradece). Se o mercado está a pedir RIA (Rich Internet Applications), então ensinem GWT ou Flex. Se o mercado está a pedir Integração de Sistemas, então ensinem a usar ferramentas como o Powerbuilder ou BEA ou afins. O “market pull” é importante mas o “technology push” é ainda mais importante, pois permite-nos ter uma enorme diferenciação sustentável (e não depender de uma pool de recursos que vamos alocando à medida que surgem projectos, aka fábrica de salsichas).
Para o “technology push” funcionar, tem que se inverter o fluxo de informação. As faculdades têm que mostrar às empresas novas tecnologias que tenham saído dos seus laboratórios, expôr as suas teses de mestrado/doutoramento, dar formação em tópicos emergentes que só terão aplicação prática daí a alguns anos. Ora não só isto não acontece actualmente, como parecem querer garantir que nunca vai acontecer, como os sermões que oiço há anos – “a faculdade está desajustada do mercado de trabalho“. Pois eu tenho outro sermão – “o mercado de trabalho está desajustado das faculdades“. Várias vezes oiço dizer que não é possível fazer investigação em Portugal dentro das empresas porque elas não têm dimensão suficiente. Aceito isso, mas não aceito que nesse caso as empresas não tomem a iniciativa de ir procurar a investigação que se faz nas faculdades.

Reparem como este “market pull” pode ser prejudical para todas as partes. A empresa X diz à faculdade Y para ensinar ASP.NET porque metade dos sites em Portugal são feitos nessa plataforma. A Microsoft patrocina esse ensino, fornecendo as ferramentas gratuitamente. Se a faculdade passar a ensinar ASP.NET, os seus alunos entram garantidamente para a empresa X e são imediatamente produtivos, pois limitam-se a fazer aquilo que já fizeram na faculdade, agora encaixado num contrato comercial. Mas o ASP.NET, como qualquer coisa nesta área, é efémero – vai ser inevitavelmente substituído daqui a uns anos. E nessa altura, a empresa X tem duas opções – (a) dar formação aos obsoletos especialistas em ASP.NET na plataforma do momento ou (b) voltar a pedir à faculdade recursos fresquinhos formados na plataforma do momento. É um ciclo vicioso. Além disso, o que ficou por ensinar enquanto se perdia tempo a leccionar ASP.NET? Conceitos de paralelismo, cada vez mais fundamentais? Padrões de desenho? Metodologias de teste? Basicamente, deu-se o peixe mas não se ensinou a pescar. Os especialistas em ASP.NET vão ficar obsoletos rapidamente e como não têm os conceitos base vão-se ver aflitos para se adaptarem às mudanças constantes que vão ocorrer na sua carreira. A empresa não vai conseguir diferenciar-se – consegue ser reactiva mas não consegue ser proactiva, e quando o mercado mudar não estará preparada. Já para não falar no país, que forma especialistas em tecnologias específicas e efémeras em vez de formar cientistas que vão criar as tecnologias de amanhã.
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