Intérpretes vs Compositores

Aos 15 anos descobri o prazer de tocar guitarra eléctrica. Como a maior parte das pessoas que começa a aprender a tocar um instrumento, passei imenso tempo a tentar tocar músicas de bandas que gostava. Comecei por coisas simples como o Polly dos Nirvana ou o Nothing Else Matters dos Metallica. Com algum treino e algumas aulas, já conseguia tocar músicas de Rage Against The Machine ou Red Hot Chilli Peppers. Com muito treino e muitas aulas (incluindo uma passagem por essa grande escola que é o Hot Clube), conseguia tocar músicas de Tool, Soundgarden e até Joe Satriani. E pelo caminho fiz parte de umas quantas bandas “de garagem”. Sei que isto não parece ter nada a ver com inovação, mas acompanhem-me neste raciocínio que havemos de chegar lá.

A certa altura, eu tocava facilmente a maior parte dos hits do momento, e podia ter tocado em alguns bares e ganho uns trocos. Mas aquilo que realmente eu gostava era de compor. Criar músicas minhas! Porque eu achava piada aprender a tocar uma música de uma banda que gostava, mas depois de a tocar umas dezenas de vezes, era uma seca. Agora, combinar livremente acordes de modo a magicamente criar belas melodias…Isso sim, dava gozo. Todas as bandas que tive compunham originais. Inicialmente, os meus originais eram muito parecidos com as minhas referências musicais. Os meus amigos diziam-me: “Essa música está muito fixe. Parece a banda X.” Eles achavam uma boa coisa que eu tivesse conseguido fazer uma música que parecia da banda X, que era uma banda que toda a gente até gostava. Eu detestava estes comentários! Eu queria compor músicas realmente originais, que fossem uma mistura de influências díspares, combinada de tal forma que fosse impossível dizer: “Isso parece uma música da banda X“.

Ao longo dos anos, conheci muitos músicos (principalmente de garagem…). A maioria tocava bastante bem músicas de outros e limitava-se a isso. Uns poucos (tipo 5%) compunham músicas mas eram muito parecidas com alguma banda de referência. Uma minoria ainda mais reduzida preocupava-se realmente em fazer algo diferente. Lembro-me de uma entrevista aos Mão Morta, em que eles diziam que tentavam que cada álbum fosse completamente diferente do anterior. Se, na fase de composição, as músicas estavam a sair muito parecidas com as do álbum anterior deitavam-nas ao lixo. Eu identifiquei-me completamente com essa filosofia. Cada vez era mais exigente com as minhas composições, e cada vez era mais difícil às pessoas que as ouviam rotulá-las ou identificar semelhanças com outras bandas. Acabei por criar um projecto com um amigo que partilhava estas ideias. Por circunstâncias diversas, esse projecto parou e não tenho tocado muito ultimamente.

Mas posso dizer com conhecimento de causa, que saber tocar bem músicas de outros é relativamente fácil. É uma questão de estudar e treinar. Há milhares de óptimos intérpretes em Portugal. Tocam “covers” em bares, cantam em karaokes, participam em concursos de televisão. Ocasionalmente tentam gravar um álbum, mas raramente conseguem. Quando conseguem, não têm sucesso, porque não têm uma voz própria. Parecem-se demasiado com uma certa banda, e as pessoas preferem ouvir a banda original do que a cópia adaptada. Não lhes reconheço grande mérito.

Mas afinal o que é que isto tem a ver com software e inovação?

Tal como na música, vejo demasiados intérpretes do software em Portugal. São muito bons tecnicamente, conseguem implementar qualquer coisa, desde que seja igual a algo já existente.

Tal como na música, vejo alguns compositores de software em Portugal mas que criam software que toda a gente diz: “Isso parece o YouTube” ou “Está tal e qual o Digg“. O software não é uma cópia exacta, mas as mudanças são meramente cosméticas – não há uma ponta de inovação que seja.

Tal como na música, vejo poucos compositores de software em Portugal que façam software com uma identidade própria, sobre os quais possamos dizer: “Nunca tinha visto nada assim. Não conheço nada igual a isso.

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